Plano Terapêutico

Oficinas terapêuticas

A partir do conceito de que as oficinas terapêuticas são dispositivos que visam efetivar um cuidado integral, oferecendo oportunidades de maneiras criativas ao sujeito em sofrimento mental.

Onde percebeu-se que a utilização das oficinas é um recurso fortemente realizado muitas vezes apenas na atenção especializada, e atenção básica apenas se

restringe a medicalização e também como um meio de encaminhamento do usuário.

Oficina é uma palavra de origem latina que existe na língua portuguesa desde o século XIV, tem como significado local onde se produz ou realiza reparos, ajustes em determinados produtos como, por exemplo: oficina mecânica, oficina de marcenaria, oficina de artesanato, entre outros. Terapia é uma palavra de origem grega (therapeía), que significa método de tratar doenças e distúrbios da saúde. Há diversos tipos de terapia, que utilizam variados procedimentos com objetivos terapêuticos. (BERGAMASHI, 2011)

Juntos, pode-se dizer através da fala de Cardozo, Borri e Martinez (2009), que as oficinas terapêuticas promovem a oportunidade de produzir, propiciando a interação social da qual muitas pessoas ficam privadas em função do sofrimento mental. Atualmente, a cidadania serve como princípio as pratica de cuidado e vem ocupando um lugar de extrema relevância enquanto assistência ao sujeito em sofrimento psíquico. Isso é fruto de intensas lutas em defesa da dignidade e dos direitos as pessoas com transtorno mental. (PIRES, XIMENES E NEPOMUCENO, 2013)

A relevância de desenvolver um trabalho que ofereça a pessoa com transtorno mental atividades expressivas e de lazer está pautada em iniciativas que buscam reduzir o poder cronificador e desabilitante de tratamentos tradicionais, para acolher a demanda dos usuários nos cenários sociais dos quais participam cidadãos comuns, com o objetivo de desenvolver uma atenção integral, promovendo a autonomia do sujeito.

As intervenções em saúde mental devem promover novas possibilidades, modificando, qualificando e organizando as condições e modos de vida, orientandose para a produção de vida e de saúde e não apenas a cura das doenças.

A partir deste pressuposto, podemos acreditar que a vida pode e tem várias formas de ser vivida, experimentada e percebida por si próprio e pelos outros, onde o sujeito possuem múltiplas dimensões, no que refere a desejos, anseios bem como também aos seus valores e escolhas. (BRASIL, 2013)

Pode se perceber que a produção de saúde é inseparável quanto à produção de subjetividade, tendo por objetivo inovar nas praticas de produção de saúde, onde humanização compreende-se por valorização dos diferentes sujeitos, sendo valores desta política a protagonismo do sujeito, a corresponsabilização, os vínculos bem como a participação da coletividade nas práticas de saúde. (BRASIL, 2009)

Dentre os vários instrumentos de intervenção, os grupos constituem uma estratégia que permite uma poderosa e riquíssima troca de experiências e transformações nas quais não seriam viáveis em um atendimento individual, pela diversidade que o momento grupal pode proporcionar. Enfim, as práticas em grupos constituem importante recurso no cuidado aos pacientes, ferramenta essa que possibilita uma forma ativa de cuidado em saúde.

As oficinas terapêuticas compõem um dos dispositivos da Política Nacional de Saúde Mental que visam sensibilizar e efetivar um cuidado integral fomentado pelos preceitos da Reforma Psiquiátrica. (BRASIL, 2004)

As oficinas podem ser coordenadas por terapeutas ocupacionais ou quaisquer outros profissionais membros da equipe multidisciplinar, que possam oferecer oportunidades aos usuários através de maneira criativa, a diversas formas de poder se expressar. (ROCHA, 2012)

As atividades podem ser feitas em grupo com a presença e orientação de um ou mais profissionais de saúde, bem como monitores e/ou estagiários. São definidas através do interesse dos usuários, das possibilidades existentes, dos profissionais e necessidades, tendo em vista uma maior integração social e familiar, a possibilidade de manifestação de sentimentos e/ou problemas, o desenvolvimento de habilidades corporais, a realização de atividades produtivas e o exercício coletivo da cidadania. (BRASIL, 2004)

Neste novo modelo de atenção, entende-se que as oficinas terapêuticas não devem possuir o sentido de causar apenas ocupação e entretenimento, mas sim de serem as grandes promotoras da reinserção social, por meio de ações que podem envolver o trabalho, a criação de produtos, a geração de renda e principalmente de estimular e retomar a autonomia do sujeito.

BRASIL (2004) aponta que de um modo geral, o trabalho terapêutico proposto pelas oficinas podem ser dividido em:

• Oficinas expressivas: Com espaços de expressão plástica, utilizando-se de pintura, argila, desenho, etc, expressão corporal com trabalho através da dança, ginástica e técnicas teatrais, expressão verbal sendo exposta na poesia, contos, leitura e redação de textos, peças teatrais e letras de música, expressão musical através de musicais, fotografia e teatro;

• Oficinas geradoras de renda: Servem de instrumento para geração de renda através da aprendizagem de uma atividade, que pode ser igual ou diferente da profissão do usuário. As oficinas geradoras de renda podem ser realizadas através da culinária, marcenaria, costura, fotocópias, fabricação e artesanatos em geral.

•Oficinas de alfabetização: Este determinado tipo de oficina contribui para os usuários que não tiveram acesso ou que não conseguiram permanecer na escola para que possam exercitar a escrita e leitura, sendo um recurso de extrema importância na construção e/ou reconstrução da cidadania.

As oficinas atuam no âmbito social e contribuem como possibilidade de transformação da realidade, no que diz respeito a toda concepção do processo saúde/ doença. Sua proposta é a expressão da singularidade e subjetividade, num espaço de convivência, criação e reinvenção do cotidiano. (MENDONÇA, 2005)

A produção e a expressão livres fornecem condições ao usuário de se transformar num sujeito produtivo, pois ao mesmo tempo em que ele é estruturado por sua produção, o mesmo pode exercitar sua possibilidade de escolha e expressão de acordo com sua personalidade. (CARDOZO, BORRI E MARTINEZ, 2009)

• Atendimento em Oficinas Terapêuticas : A este grupo pertencem atividades grupais de no mínimo 05 e no máximo 15 usuários, com atividades de socialização, expressão e inserção social, tendo duração mínima de 02 (duas) horas, executadas por profissional de nível médio, através de atividades como carpintaria, costura, teatro, cerâmica, artesanato ou artes plásticas, requerendo material de consumo específico de acordo com a natureza da oficina.

Quanto as formas de iniciar uma atividade, primeiramente é necessário propor ao paciente a possibilidade de escolha dentre as atividades oferecidas, para que o mesmo defina a que mais lhe interessar, pois importante mesmo, é que a atividade exercida na oficina lhe proporcione sentido, para que a mesma sinta o prazer de realizar a atividade proposta. É importante também que as atividades propostas não sejam ofertadas de forma pronta, já que quando é preparada e desenvolvida no grupo, a mesma pode estimula-los a tomar iniciativas, bem como a criatividade de cada participante

É válido lembrar que a interação entre os membros gera uma nova personalidade coletiva, enfatizando assim o quanto se é benéfico toda qualquer atividade grupal. Enfim, deve-se ter como resultado ás ações desenvolvidas, a ultrapassar o modelo biomédico este apenas focado na doença, a produção de autonomia e de sua cidadania, bem como o fortalecimento da integralidade no cuidado em saúde, proporcionando novos sentidos na vida dos usuários e de sua família. Para sua efetivação, utilizam-se meios de trabalho estimulando a integração da equipe multiprofissional, conhecimento do sujeito, construção de vínculo, a elaboração de projeto terapêutico conforme especificidades e a ampliação dos recursos de intervenção sobre o processo de saúde-doença. Nessa terapêutica não se restringe somente a tratamentos convencionais, mas sim ao poder terapêutico da escuta e da palavra, da educação em saúde e o apoio psicossocial.

Sendo assim, o trabalho grupal não deve ser visto como forma de dar conta da demanda, mas sim de uma forma de cuidado que possa propiciar a socialização, integração, apoio psíquico troca de experiências e saberes bem como construção de projetos coletivos. (ROCHA, 2012)

A principal função dos grupos se enquadra na educação em saúde, no desenvolvimento do empoderamento e autonomia e na participação e corresponsabilização dos pacientes participantes. Necessitam de espaços de convivência e criação para expressar suas opiniões que é através do grupo que desenvolvem laços de cuidado e compartilham experiências.

A oficinas terapêuticas de acordo com toda a literatura encontrada trata- se de umas das mais diversas atividades que promovem a consideração do sujeito em sua realidade, intervindo nos mais diferentes espaços, fortalecendo principalmente sua autonomia, característica essa que é algumas vezes retirada a “força” do sujeito em sofrimento psíquico.

Ainda que as Políticas públicas em Saúde mental sejam tão claramente descritas, é necessário que elas sejam efetivamente utilizadas, que o cuidado em saúde mental seja desenvolvido de forma horizontal, ampliando seus recursos terapêuticos

de forma a potencializar os resultados tão almejados pelos profissionais e usuários

nos processos terapêuticos. É através dessa forma conseguiremos evitar atendimentos especializados como primeira escolha, a medicalização como única ferramenta de tratamento, a cronificação e por fim a negligência comum nos casos de sofrimento mental, que muitas vezes ainda é entendido como demandas que não

podem ser responsabilidade na Atenção Básica.

Seria de grande valia que o poder publico pudesse compreender, estimular, colaborar e favorecer, Instituições como a nossa, pois se existe tal demanda, infelizmente entendemos que em algum ponto ou estratégia nossa saude básica falhou, e se nosso objetivo comum é realmente a recuperação deste paciente considerando o mesmo como individuo de uma sociedade, a responsabilidade do mesmo não apenas sendo desta instituição ou família sendo que o mesmo faz parte de um contexto social e político.

Para finalizar é importante também que a partir deste trabalho, seja possível pensar nas oficinas como componentes de cuidado, ainda que possa influenciar na criação de novas práticas terapêuticas e que outras pesquisas sejam realizadas, podendo assim analisar e exemplificar de forma concreta a utilização delas no trabalhado realizado dentro da AB.

O desenvolvimento das oficinas terapêuticas na Clínica são aplicados aos usuários de modo continuado, com cronograma semanal de ativadas programadas. As oficinas terapêuticas destacam-se: festividades comemorativas, atividades artísticas, pinturas, colagens, oficinas com horta, musicoterapia, dinâmicas, depoimentos e oficinas socioeducativas, possibilitando aos usuários do serviço um lugar de fala, expressão e acolhimento.
Dessa forma, destaca-se o acolhimento dos usuários e o projeto terapêutico individual, construído e idealizado conforme as necessidades de saúde/doença e realidade social encontrada, além do atendimento individual e de grupo. Como atividades coletivas destaca-se: as oficinas terapêuticas, os encontros familiares, as atividades de espiritualidade, as festividades em datas comemorativas, as reuniões, as atividades artísticas (expressão corporal, gestual, musical).
As Oficinas Terapêuticas são consideradas como espaços de convivência que podem promover o sentido positivo de pertencimento de um grupo, servem como meio de expressão, de troca, de aprendizado, inclusive como redução de danos e de novas formas de ser. Apresentam-se como estratégias propulsaras de mudanças subjetivas, que produzem efeitos no comportamento do individuo de forma coletiva e participativa.